{"id":322,"date":"2015-04-10T05:33:55","date_gmt":"2015-04-10T08:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/drpaulomaciel.wordpress.com\/?page_id=322"},"modified":"2021-09-04T18:49:55","modified_gmt":"2021-09-04T21:49:55","slug":"meritocracia-na-direita-e-na-esquerda","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/mesaismo.com.br\/index.php\/teste\/meritocracia-na-direita-e-na-esquerda\/","title":{"rendered":"Meritocracia na Direita e na Esquerda"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><a href=\"https:\/\/drpaulomaciel.files.wordpress.com\/2015\/04\/merito.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-326\" src=\"https:\/\/drpaulomaciel.files.wordpress.com\/2015\/04\/merito.jpg\" alt=\"Merito\" width=\"274\" height=\"184\"><\/a><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">O texto \u201c<b>Desvendando a espuma: o enigma da classe m\u00e9dia brasileira\u201d de <\/b><b>Renato Santos de Souza (UFSM\/RS) <\/b>foi muito bem escrito e desenvolvido, mas tem um erro fundamental, que desconstr\u00f3i toda a sua teoria b\u00e1sica: a ideia de que a teoria do merecimento pertence \u00fanica e exclusivamente \u00e0 Classe M\u00e9dia Brasileira: \u201cA minha resposta, ent\u00e3o, ao enigma da <i>classe m\u00e9dia brasileira<\/i> aqui colocado, come\u00e7ava a se desvelar: \u00e9 que boa parte dela \u00e9 reacion\u00e1ria porque \u00e9 meritocr\u00e1tica; ou seja, a meritocracia est\u00e1 na base de sua ideologia conservadora.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Em segundo lugar, todo discurso que utiliza este tipo de linguagem: \u201creacion\u00e1ria\u201d, \u201cconservadora\u201d, \u201cdesigualdade social\u201d, etc. \u00e9 um discurso de cunho socialista, que tem um vi\u00e9s social predominante e que tenta destruir a assim chamada \u201cburguesia\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Marilena Chau\u00ed \u00e9 uma&nbsp;filosofa&nbsp;totalmente Marxista e no seu conceito de justi\u00e7a social n\u00e3o existem as classes A, B, C, D e E; existe apenas a classe oper\u00e1ria se autogovernando, como queria Marx. No v\u00eddeo em quest\u00e3o, onde Marilena diz em alto e bom tom que \u201cEu odeio a classe m\u00e9dia\u201d, ela frisa que a&nbsp;\u201cclasse m\u00e9dia \u00e9 igual a uma pequena burguesia\u201d e conclui que \u201cn\u00e3o existe uma nova classe m\u00e9dia; existe uma nova classe oper\u00e1ria\u201d! Diz ela tamb\u00e9m: \u201cA perspectiva de que dispor de um conjunto de bens de consumo de massa e dispor de um conjunto de direitos sociais significa mudar de classe? N\u00e3o! Significa que a classe conquistou os seus direitos e o seu lugar\u201d. E tamb\u00e9m: \u201cO que surge no Brasil \u00e9 uma nova classe trabalhadora muito complexa, muito diferente daquilo que tradicionalmente a gente conhece. Ela \u00e9 majoritariamente, o sujeito pol\u00edtico da pr\u00f3xima d\u00e9cada\u201d. E termina o seu discurso escatol\u00f3gico com as seguintes palavras:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;\u201cEu odeio a classe m\u00e9dia! A classe m\u00e9dia \u00e9 o atraso de vida; a classe m\u00e9dia \u00e9 estupidez; \u00e9 o que tem de reacion\u00e1rio, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista, \u00e9 uma coisa fora do comum a classe m\u00e9dia. Ent\u00e3o eu me recuso admitir que os trabalhadores brasileiros, porque eles galgaram direitos, viraram classe m\u00e9dia. A classe m\u00e9dia \u00e9 uma abomina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, porque ela \u00e9 fascista; ela \u00e9 uma abomina\u00e7\u00e3o \u00e9tica, porque ela \u00e9 violenta; e ela \u00e9 uma abomina\u00e7\u00e3o cognitiva porque ela \u00e9 ignorante! Fim!\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Estas palavras, que fizeram Renato de Souza escrever: \u201cfiquei perplexo e tendi a rejeitar a tese quase impulsivamente\u201d, tamb\u00e9m gerou um coment\u00e1rio do Lula, logo ap\u00f3s o final da apresenta\u00e7\u00e3o: \u201cDepois de anos que lutei para chegar \u00e0 classe m\u00e9dia, vem essa mulher e esculhamba com a classe m\u00e9dia\u2026\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Loucuras e brincadeiras \u00e0 parte, o conceito do \u201cmerecimento\u201d n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o exclusiva com a classe m\u00e9dia brasileira, como diz o autor da ideia, mas sim a uma no\u00e7\u00e3o ancestral do ser humano!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Vamos, ent\u00e3o, avaliar a quest\u00e3o hist\u00f3rica do conceito do m\u00e9rito, que recentemente adquiriu a ideia da Meritocracia na pol\u00edtica considerada de Direita:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;A \u201cMeritocracia\u201d (m\u00e9rito, a partir da palavra latina <i>Mereo<\/i> \u201cganhar\u201d e do grego <i>cracy<\/i>, a partir do antigo <i>kratos, \u03ba\u03c1\u03ac\u03c4\u03bf\u03c2 <\/i>\u201cfor\u00e7a, poder\u201d) \u00e9 uma filosofia pol\u00edtica que sustenta que o poder deve ser atribu\u00eddo a indiv\u00edduos quase que exclusivamente de acordo com o m\u00e9rito. O avan\u00e7o de tal sistema \u00e9 baseado no talento intelectual medido atrav\u00e9s de exame e\/ou a realiza\u00e7\u00e3o da capacidade demonstrada no campo em que \u00e9 aplicada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">A defini\u00e7\u00e3o mais comum de meritocracia conceitua o m\u00e9rito em termos de compet\u00eancia testada e de capacidade, e muito provavelmente, como a medida por testes de desempenho padronizados ou QI. No governo ou outros sistemas de gest\u00e3o, a meritocracia, num sentido administrativo, \u00e9 um sistema de governo ou outra administra\u00e7\u00e3o (tais como administra\u00e7\u00e3o de empresas), em que os compromissos e as responsabilidades s\u00e3o atribu\u00eddos aos indiv\u00edduos com base em seus \u201cm\u00e9ritos\u201d, ou seja, a intelig\u00eancia, credenciais, e educa\u00e7\u00e3o, determinados por meio de avalia\u00e7\u00f5es ou exames.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Os defensores da meritocracia n\u00e3o concordam necessariamente com a natureza do \u201cm\u00e9rito\u201d; no entanto, eles tendem a concordar que o \u201cm\u00e9rito\u201d em si deve ser uma considera\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria durante a avalia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Em um sentido mais geral, a meritocracia pode referir-se a qualquer forma de governo baseado na conquista. Assim como as palavras \u201cutilitarista\u201d e \u201cpragm\u00e1tica\u201d, a palavra \u201cmeritocr\u00e1tica\u201d tamb\u00e9m desenvolveu uma defini\u00e7\u00e3o mais ampla, e pode ser usada para se referir a qualquer governo dirigido por \u201cuma classe dominante ou influente de pessoas educadas ou capazes.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Isso est\u00e1 em contraste com o uso original, condenat\u00f3rio do termo criado por Michael Young em 1958, que o definiu como um sistema em que \u201co m\u00e9rito \u00e9 equiparado \u00e0 intelig\u00eancia mais o esfor\u00e7o, seus possuidores s\u00e3o identificados mais comumente em uma idade adiantada e selecionados por uma educa\u00e7\u00e3o intensiva e n\u00e3o h\u00e1 uma obsess\u00e3o com a quantifica\u00e7\u00e3o, teste de pontua\u00e7\u00e3o, e as qualifica\u00e7\u00f5es\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">A meritocracia, no seu sentido mais amplo, pode ser qualquer ato geral do ju\u00edzo sobre a base de v\u00e1rios m\u00e9ritos demonstrados; tais atos s\u00e3o frequentemente descritos em sociologia e psicologia. Assim, o m\u00e9rito pode se estender al\u00e9m da intelig\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o para qualquer talento mental ou f\u00edsica ou a \u00e9tica de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Na ret\u00f3rica, a demonstra\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio m\u00e9rito sobre o dom\u00ednio de um determinado assunto \u00e9 uma tarefa essencial mais diretamente relacionada com o <i>Ethos<\/i> aristot\u00e9lica prazo. A concep\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica equivalente de meritocracia \u00e9 baseada em estruturas aristocr\u00e1ticas ou olig\u00e1rquicas, em vez de no contexto do Estado moderno.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<b>Etimologia<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Embora o conceito do merecimento j\u00e1 existe h\u00e1 s\u00e9culos, o termo \u201cmeritocracia\u201d foi cunhado pela primeira vez na d\u00e9cada de 1950. Ele foi usado pelo pol\u00edtico e soci\u00f3logo brit\u00e2nico Michael Young em seu ensaio sat\u00edrico de 1958, \u201cA Ascens\u00e3o da Meritocracia\u201d, que imaginou o Reino Unido sob o dom\u00ednio de um governo que favorecia a intelig\u00eancia e a aptid\u00e3o (m\u00e9rito) acima de tudo, sendo a combina\u00e7\u00e3o da raiz de origem latina \u201cm\u00e9rito\u201d (de \u201c<i>mere\u014d<\/i>\u201d) e do sufixo do grego antigo \u201c<i>cracy<\/i>\u201d (que significa \u201cpoder\u201d, \u201cregra\u201d). Neste livro, o termo tinha conota\u00e7\u00f5es negativas distintamente como Young questionou tanto a legitimidade do processo de sele\u00e7\u00e3o utilizados para tornar-se um membro desta elite e os resultados de ser governado por um grupo t\u00e3o estreitamente definida. O ensaio, escrito na primeira pessoa por um narrador fict\u00edcio hist\u00f3rico em 2034, entrela\u00e7a a hist\u00f3ria da pol\u00edtica do pr\u00e9 e do p\u00f3s-guerra da Gr\u00e3-Bretanha com os futuros eventos fict\u00edcios no curto (1960 em diante) e longo prazo (2020 em diante).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">O ensaio foi baseado na tend\u00eancia dos governos ent\u00e3o vigentes em seu esfor\u00e7o para a intelig\u00eancia, a ignorar as defici\u00eancias e os fracassos dos sistemas de ensino para utilizar corretamente os membros dotados e talentosos em suas sociedades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">O narrador ficcional de Young explica que, por um lado, o maior contribuinte para a sociedade n\u00e3o \u00e9 a \u201cmassa impass\u00edvel\u201d ou da maioria, mas a \u201cminoria criativa\u201d ou membros da \u201celite inquieta\u201d. Por outro lado, ele afirma que h\u00e1 v\u00edtimas do progresso, cuja influ\u00eancia \u00e9 subestimada e que, a partir de tal ades\u00e3o obstinada \u00e0 ci\u00eancia natural e \u00e0 intelig\u00eancia, surge a arrog\u00e2ncia e a complac\u00eancia. Este problema \u00e9 encapsulado na frase \u201cCada sele\u00e7\u00e3o de um \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o de muitos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Ele tamb\u00e9m foi usado por Hannah Arendt em seu ensaio, \u201ccrise na educa\u00e7\u00e3o\u201d, que foi escrito em 1958 e refere-se ao uso de meritocracia no sistema educacional Ingl\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Embora a meritocracia como termo seja uma palavra recentemente cunhada (em 1958), o conceito de um governo baseado em exames padronizados tem origem nos trabalhos de Conf\u00facio, junto com outros fil\u00f3sofos legalistas e confucionistas. A primeira meritocracia foi implementada no segundo s\u00e9culo antes de Cristo, pela dinastia Han, que introduziu os primeiros exames do servi\u00e7o civil do mundo que avaliam o \u201cm\u00e9rito\u201d dos funcion\u00e1rios. A meritocracia como um conceito espalhou da China para a \u00cdndia brit\u00e2nica durante o s\u00e9culo XVII, e, em seguida, para a Europa continental e nos Estados Unidos. Com a tradu\u00e7\u00e3o de textos de Conf\u00facio durante o Iluminismo, o conceito de meritocracia atingiu os intelectuais do Ocidente, que o viam como uma alternativa ao regime antigo tradicional da Europa. Nos Estados Unidos, o assassinato do presidente Garfield em 1881 predisp\u00f4s a substitui\u00e7\u00e3o do \u201csistema de despojos\u201d americano para a meritocracia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Nos&nbsp;pol\u00edtica dos Estados Unidos, o&nbsp;\u201csistema de despojos\u201d&nbsp;(tamb\u00e9m conhecido como um&nbsp;\u201csistema de patroc\u00ednio\u201d) era uma pr\u00e1tica em que um&nbsp;partido pol\u00edtico, depois de vencer uma elei\u00e7\u00e3o, dava empregos p\u00fablicos para os seus apoiantes, amigos e parentes como uma recompensa para o trabalho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria e, como um incentivo para continuar a trabalhar para o partido (conhecido como \u201cfisiologismo\u201d no Brasil), em oposi\u00e7\u00e3o a um&nbsp;sistema de m\u00e9rito, onde os cargos p\u00fablicos eram concedidos com base em alguma medida de&nbsp;m\u00e9rito, independente da atividade pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">O termo foi derivado da frase \u201cao vencedor pertencem os despojos\u201d pelo senador&nbsp;nova-iorquino William L. Marcy,&nbsp;referindo-se \u00e0 vit\u00f3ria do&nbsp;Democrata Jackson&nbsp;na&nbsp;elei\u00e7\u00e3o de 1828, com o termo \u201cdespojo\u201d significando os bens ou benef\u00edcios tirados do perdedor em uma competi\u00e7\u00e3o, elei\u00e7\u00e3o ou a vit\u00f3ria militar. Sistemas de despojos similares s\u00e3o comuns em outros pa\u00edses que tradicionalmente se baseiam na organiza\u00e7\u00e3o tribal ou outros&nbsp;grupos de parentesco&nbsp;e&nbsp;localismo&nbsp;em geral.<sup>1<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Em 1883, a Lei de Reforma do Servi\u00e7o Civil Pendleton foi aprovada, estipulando que os empregos p\u00fablicos deviam ser concedidos com base no m\u00e9rito atrav\u00e9s de exames competitivos, ao inv\u00e9s de la\u00e7os com pol\u00edticos ou filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. &nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">A forma mais comum de triagem meritocr\u00e1tica encontrada hoje \u00e9 o diploma universit\u00e1rio. O ensino superior \u00e9 um sistema de triagem meritocr\u00e1tica imperfeito por v\u00e1rios motivos, como a falta de padr\u00f5es uniformes em todo o mundo, falta de escopo (nem todas as profiss\u00f5es e os processos est\u00e3o inclu\u00eddos), e falta de acesso (algumas pessoas talentosas nunca tiveram uma oportunidade de participar por causa das despesas, sobretudo nos pa\u00edses em desenvolvimento).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<b>Tempos antigos: China e na Gr\u00e9cia<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">De acordo com o consenso acad\u00eamico, o exemplo mais antigo de uma meritocracia administrativa, com base em concursos p\u00fablicos, remonta \u00e0 China antiga. O conceito foi originado, pelo menos no sexto s\u00e9culo a.C., quando foi defendida pelo fil\u00f3sofo chin\u00eas Conf\u00facio, que \u201cinventou a no\u00e7\u00e3o de que os governantes devem faz\u00ea-lo por causa do m\u00e9rito, sem um estatuto herdado. Isso p\u00f4s em marcha a cria\u00e7\u00e3o dos exames imperiais e burocracias abertas apenas para aqueles que passassem por testes. \u201c<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Como as dinastias Qin e Han desenvolveram um sistema meritocr\u00e1tico a fim de manter o poder sobre um grande e imenso imp\u00e9rio, tornou-se necess\u00e1rio para o governo manter uma complexa rede de funcion\u00e1rios. Funcion\u00e1rios potenciais poderiam vir de um fundo rural e as posi\u00e7\u00f5es do governo n\u00e3o se restringiram \u00e0 nobreza. A posi\u00e7\u00e3o era determinada pelo m\u00e9rito, atrav\u00e9s dos concursos p\u00fablicos, e a educa\u00e7\u00e3o tornou-se a chave para a mobilidade social. Ap\u00f3s a queda da dinastia Han, o sistema de nove posi\u00e7\u00f5es foi estabelecida durante o per\u00edodo dos Tr\u00eas Reinos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;De acordo com a Enciclop\u00e9dia Princeton em Hist\u00f3ria Americana:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Um dos exemplos mais antigos de um sistema de servi\u00e7o p\u00fablico baseado no m\u00e9rito existia na burocracia imperial da China. Rastreando desde 200 a.C., a dinastia Han adotou o Confucionismo como a base de sua filosofia pol\u00edtica e estrutural, que incluiu a ideia revolucion\u00e1ria de substituir a nobreza de sangue pela virtude e honestidade, e, assim, chamar pessoas para cargos administrativos baseando-se exclusivamente no m\u00e9rito. Este sistema permitia que qualquer pessoa que passasse em um exame pudesse se tornar um oficial do governo, uma posi\u00e7\u00e3o que traria riqueza e honra para toda a fam\u00edlia. Em parte devido \u00e0 influ\u00eancia chinesa, o primeiro servi\u00e7o civil europeu n\u00e3o se originou na Europa, mas sim na \u00cdndia pela <i>British-run East India Company<\/i>&#8230; uma companhia de gestores contratados e empregados promovidos com base em concursos, a fim de prevenir a corrup\u00e7\u00e3o e o favoritismo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Tanto Plat\u00e3o quanto Arist\u00f3teles defendiam a meritocracia. Plat\u00e3o em sua \u201cA Rep\u00fablica\u201d, argumentando que o mais s\u00e1bio deve governar, e, portanto, os governantes devem ser reis fil\u00f3sofos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<b>Do s\u00e9culo 17: espalhou para a Europa<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">O conceito da meritocracia propagou-se da China para a \u00cdndia brit\u00e2nica durante o s\u00e9culo XVII, e em seguida para a Europa continental e os Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Com a tradu\u00e7\u00e3o de textos de Conf\u00facio durante o Iluminismo, o conceito de meritocracia alcan\u00e7ou os intelectuais no Ocidente, que o viram como uma alternativa ao regime antigo tradicional da Europa.&nbsp; Voltaire e Fran\u00e7ois Quesnay escreveram favoravelmente \u00e0 ideia, com Voltaire alegando que os chineses tinham \u201caperfei\u00e7oado a ci\u00eancia moral\u201d e Quesnay defendendo um sistema econ\u00f4mico e pol\u00edtico modelado pelos chineses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">A primeira pot\u00eancia europeia a implementar um servi\u00e7o p\u00fablico meritocr\u00e1tico bem sucedido foi o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, em sua administra\u00e7\u00e3o da \u00cdndia: \u201cGestores de empresas contratados e funcion\u00e1rios promovidos com base em concursos, a fim de prevenir a corrup\u00e7\u00e3o e o favoritismo\u201d. Administradores coloniais brit\u00e2nicos defenderam a propaga\u00e7\u00e3o do sistema para o resto da comunidade, sendo que o mais \u201cpersistente\u201d foi Thomas Taylor Meadows, c\u00f4nsul da Gr\u00e3-Bretanha, em Guangzhou, na China. Meadows argumentou com sucesso em suas \u201cAnota\u00e7\u00f5es desconexas sobre o Governo e o Povo da China\u201d, publicado em 1847, que \u201ca longa dura\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio chin\u00eas \u00e9 \u00fanica e completamente devida ao bom governo, que consiste apenas no avan\u00e7o dos homens de talento e m\u00e9rito\u201d, e que os brit\u00e2nicos deviam reformar suas fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, tornando a institui\u00e7\u00e3o meritocr\u00e1tica. Esta pr\u00e1tica foi posteriormente adotada no final do s\u00e9culo XIX pelo continente brit\u00e2nico, inspirado no \u201csistema mandarim chin\u00eas.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<b>S\u00e9culo 19: Estados Unidos<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Nos Estados Unidos, a burocracia federal usou o Sistema de esp\u00f3lios de 1828 at\u00e9 que o assassinato do presidente dos Estados Unidos James A. Garfield por um decepcionado pretendente ao cargo em 1881 provou seus perigos. Dois anos mais tarde, em 1883, o sistema de nomea\u00e7\u00f5es para a burocracia federal dos Estados Unidos foi reformulado pela Lei de Reforma do Servi\u00e7o Civil Pendleton, parcialmente baseado no servi\u00e7o p\u00fablico meritocr\u00e1tico brit\u00e2nico que havia sido estabelecido anos antes. O ato estipulou que os trabalhos do governo deveriam ser concedidos com base no m\u00e9rito, atrav\u00e9s de exames competitivos, em vez de la\u00e7os com pol\u00edticos ou filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ele tamb\u00e9m tornou ilegal demitir ou rebaixar funcion\u00e1rios do governo por motivos pol\u00edticos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Para refor\u00e7ar o sistema de m\u00e9rito e do sistema judicial, a lei tamb\u00e9m criou nos Estados Unidos a Comiss\u00e3o do Servi\u00e7o Civil. Na meritocracia americana moderna, o presidente pode distribuir apenas um certo n\u00famero de postos de trabalho, que devem ser aprovados pelo Senado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<b>Austr\u00e1lia<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">A Austr\u00e1lia come\u00e7ou a estabelecer as universidades p\u00fablicas na d\u00e9cada de 1850 com o objetivo de promover a meritocracia, proporcionando forma\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada e credenciais. O sistema educacional foi criado para atender homens urbanos da classe m\u00e9dia, mas de diversas origens sociais e religiosas. Era cada vez mais aberto a todos os graduados da rede p\u00fablica de ensino, as de \u00e1rea rural e regional, e em seguida, para as mulheres e, finalmente, para as minorias \u00e9tnicas. Ambas as classes m\u00e9dias e as classes trabalhadoras t\u00eam promovido o ideal de meritocracia dentro de um forte compromisso de \u201ccamaradagem\u201d e de igualdade pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Vemos ent\u00e3o que o conceito do m\u00e9rito, na pol\u00edtica, visava originalmente selecionar os funcion\u00e1rios p\u00fablicos pelas suas compet\u00eancias pessoais (atrav\u00e9s de estudos, provas, concursos, dons e potencialidades) e n\u00e3o pelos sistemas de fisiologismo at\u00e9 hoje aplicados em todo o mundo. Mas que, a partir de Michael Young adquiriu um conceito ir\u00f4nico e negativo, atualmente usado pelas pol\u00edticas de Esquerda para desmerecer a sua real implica\u00e7\u00e3o.<sup>2<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Fora do contexto pol\u00edtico, o m\u00e9rito sempre foi valorizado nos pensamentos religiosos de todos os tempos, como citados nestas frases, tanto no aspecto negativo, quanto positivo:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;\u201cE ser\u00e1 que, se o injusto merecer a\u00e7oites, o juiz o far\u00e1 deitar-se, para que seja a\u00e7oitado diante de si; segundo a sua culpa, ser\u00e1 o n\u00famero de a\u00e7oites.\u201d Dt 25:2<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cTu lhes dar\u00e1s recompensa, Senhor, conforme a obra das suas m\u00e3os.\u201d Lamenta\u00e7\u00f5es 3:64<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cPorque, segundo a obra do homem, ele lhe paga; e faz a cada um segundo o seu caminho.\u201d&nbsp;J\u00f3 34:11<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cO qual recompensar\u00e1 cada um segundo as suas obras\u201d&nbsp;Romanos 2:6<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cE, apartando-se dali falavam uns com os outros, dizendo: Este homem nada fez digno de morte ou de pris\u00f5es.\u201d&nbsp;Atos 26:31<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cA esmola oferecida a uma pessoa merecedora de tal benef\u00edcio e que n\u00e3o possa retribu\u00ed-lo, com a ideia de cumprir um dever e em tempo e lugar adequados, \u00e9 sattvica.\u201d Krishna, Canto XVII Os Tr\u00eas Motivos de Agir. Bhagavad Gita<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cO Buda ensina que o culpado merece castigo, e o digno de favor deve ser favorecido. Por\u00e9m tamb\u00e9m ensina que n\u00e3o se deve fazer sofrer nenhum ser vivente, mas ter o cora\u00e7\u00e3o cheio de amor e compaix\u00e3o. Estes dois ensinamentos n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rios, por que quem recebe castigo por seus crimes, n\u00e3o sofre por maldade do juiz e sim em consequ\u00eancia de sua culpa. Suas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es lhe acarretaram o mal que lhe inflige o executar da lei.\u201d O Evangelho de Buda &#8211; Prega\u00e7\u00e3o de Buda, II &#8211; A Aniquila\u00e7\u00e3o<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cAquela \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o que j\u00e1 passou; colher\u00e1 o que mereceu e v\u00f3s colhereis o que merecerdes, e n\u00e3o sereis responsabilizados pelo que fizeram.\u201d \u201cAl B\u00e1cara\u201d (A Vaca) 2\u00aa Surata, 134.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cE temei o dia em que retornareis a Deus, e em que cada alma receber\u00e1 o seu merecido, sem ser defraudada.\u201d \u201cAl-F\u00e1tiha\u201d (A Abertura) 1\u00aa Surata, 281.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cDize-lhes: Quereis que vos inteire de quem s\u00e3o os mais desmerecedores, por suas obras?\u201d \u201cAl Cahf\u201d (A Caverna) 18\u00aa Surata, 103<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Esta lista poderia se estender indefinidamente, percorrendo os milhares de anos de hist\u00f3ria e doutrina religiosas de nossa humanidade&#8230; mas como os socialistas acreditam na famosa frase de Marx \u201ca religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo\u201d, vou parar por aqui a compara\u00e7\u00e3o entre o merecimento das boas e m\u00e1s obras humanas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Voltando ao tema do Renato de Souza, ele come\u00e7a seu texto citando o v\u00eddeo de Marilena Chau\u00ed e conclui que ela est\u00e1 falando \u00fanica e exclusivamente da Classe M\u00e9dia Brasileira: \u201cA minha resposta, ent\u00e3o, ao enigma da classe m\u00e9dia brasileira aqui colocado, come\u00e7ava a se desvelar: \u00e9 que boa parte dela \u00e9 reacion\u00e1ria porque \u00e9 meritocr\u00e1tica; ou seja, a meritocracia est\u00e1 na base de sua ideologia conservadora.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">J\u00e1 vimos aqui que, historicamente, esta conclus\u00e3o n\u00e3o procede, j\u00e1 que ela tem por base um conceito positive de compet\u00eancia professional para exercer um cargo p\u00fablico, ou de capacita\u00e7\u00e3o moral para merecer ben\u00e7\u00e3os e salva\u00e7\u00e3o spiritual!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Mas a distor\u00e7\u00e3o deste conceito ancestral tornou a ideia do merecimento como uma distor\u00e7\u00e3o criada pelo Capitalismo e ainda mais, pelo Neoliberalismo!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Vamos agora analisar algumas conclus\u00f5es do Renato de Souza sobre a meritocracia sob o ponto de vista de Marilena Chau\u00ed:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;A primeira coisa que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que Renato usa as palavras de Marilena como verdades incontest\u00e1veis; ou seja, o que ela falou \u00e9 uma verdade e eu s\u00f3 preciso entender a raz\u00e3o da exist\u00eancia desta verdade. Embora ele mesmo reconhe\u00e7a de que \u201cN\u00e3o d\u00e1 para pensar em um pa\u00eds menos desigual sem uma classe m\u00e9dia forte: igualdade na mis\u00e9ria seria retrocesso, na riqueza seria imposs\u00edvel\u201d, ainda assim, ele busca uma explica\u00e7\u00e3o para a verdade dita por Marilena. E continua em sua compreens\u00e3o pessoal: \u201co engrossamento da classe m\u00e9dia tem sido visto como sinal de desenvolvimento do pa\u00eds, de redu\u00e7\u00e3o das desigualdades, de equil\u00edbrio da pir\u00e2mide social, ou mais, de uma positiva mobilidade social, em que muitos t\u00eam ascendido na vida a partir da base. A classe m\u00e9dia seria como que um ponto de converg\u00eancia conveniente para uma sociedade mais igualit\u00e1ria\u201d. Mas, para dar vaz\u00e3o \u00e0 verdade ditada pela Marilena, Renato conclui: \u201cPara a esquerda, sobretudo, ela indicaria uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho com menos explora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Mas ele esquece o que Marilena pensa da Classe M\u00e9dia: \u201cN\u00e3o existe uma nova classe m\u00e9dia; existe uma nova classe oper\u00e1ria\u201d!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Ent\u00e3o, tentando entender a \u201csabedoria\u201d nas palavras de Marilena, Renato tem um insight de genialidade quando observa as rea\u00e7\u00f5es dos m\u00e9dicos alopatas em rela\u00e7\u00e3o ao programa do PT \u201cMais m\u00e9dicos\u201d: \u201cEnt\u00e3o adveio aquela abomin\u00e1vel rea\u00e7\u00e3o de grande parte da categoria m\u00e9dica \u2013 justamente uma categoria profissional com voca\u00e7\u00e3o para classe m\u00e9dia &#8211; ao Programa Mais M\u00e9dicos, e me sugeriu uma resposta. Aqueles epis\u00f3dios me ajudaram a desvendar a espuma.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Finalmente, Renato encontrou a resposta que justificava a verdade marxista de Marilena: \u201c\u00c9 um feito se formar m\u00e9dico no Brasil, e talvez por isto esta forma\u00e7\u00e3o, mais do que qualquer outra, seja uma celebra\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito. Sendo assim, sup\u00f5e-se, n\u00e3o se pode aceitar que qualquer um que n\u00e3o demonstre ter tido os mesmos m\u00e9ritos, desfrute das mesmas prerrogativas que os profissionais formados aqui. Ent\u00e3o, aquela rea\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica, e a meu ver descabida, da categoria m\u00e9dica, incompreens\u00edvel at\u00e9 para o resto da classe m\u00e9dia, era, na verdade, um brado pela meritocracia.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Pronto, estava criada uma nova teoria pol\u00edtica e econ\u00f4mica: a classe m\u00e9dia brasileira \u00e9 \u201cum atraso de vida; \u00e9 estupidez; \u00e9 reacion\u00e1ria, conservadora, ignorante, petulante, arrogante, terrorista; \u00e9 uma abomina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica porque \u00e9 fascista; uma abomina\u00e7\u00e3o \u00e9tica porque \u00e9 violenta; e \u00e9 uma abomina\u00e7\u00e3o cognitiva porque \u00e9 ignorante!\u201d Fim!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">T\u00e3o simples assim&#8230; mas isto n\u00e3o vale s\u00f3 a classe m\u00e9dica brasileira; isto vale para toda a classe m\u00e9dia do pa\u00eds, inclusive para a pr\u00f3pria Marilena, que ganha R$ 23.508,00 por m\u00eas como professora titular da USP, segundo a revista Veja, ou o pr\u00f3prio autor <em>Renato Santos de Souza, que se define nos sites e blogs<\/em><i>&nbsp;como<\/i><em>&nbsp;Engenheiro Agr\u00f4nomo, Mestre em Economia, Doutor em Administra\u00e7\u00e3o e Professor da Universidade Federal de Santa Maria \u2013 RS.<sup>3<\/sup><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\"><em>&nbsp;<\/em>Enfim, se voc\u00ea est\u00e1 lendo este texto pelo seu computador ou celular particulares, voc\u00ea provavelmente pertence \u00e0 classe m\u00e9dia; por isso eu lhe pergunto: Voc\u00ea se considera uma \u201cabomina\u00e7\u00e3o social, est\u00fapido, reacion\u00e1rio, conservador, ignorante, petulante, arrogante e terrorista\u201d apenas por fazer parte da classe m\u00e9dia brasileira? Se a sua resposta for \u201cN\u00c3O\u201d, toda a teoria do Rento cai por terra!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<em>Dando continuidade ao seu insight filos\u00f3fico, Renato continua escrevendo:<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u201cAssim, boa parte da classe m\u00e9dia \u00e9 contra as cotas nas universidades, pois a etnia ou a condi\u00e7\u00e3o social n\u00e3o s\u00e3o crit\u00e9rios de m\u00e9rito; \u00e9 contra o bolsa-fam\u00edlia, pois ganhar dinheiro sem trabalhar al\u00e9m de um dem\u00e9rito desestimula o esfor\u00e7o produtivo; quer mais pris\u00f5es e penas mais duras porque meritocracia tamb\u00e9m significa o contr\u00e1rio, pagar caro pela falta de m\u00e9rito; reclama do pagamento de impostos porque o dinheiro ganho com o pr\u00f3prio suor n\u00e3o pode ser apropriado por um Governo que n\u00e3o produz, muito menos ser distribu\u00eddo em servi\u00e7os para quem n\u00e3o \u00e9 produtivo e n\u00e3o gera impostos. \u00c9 contra os pol\u00edticos porque em uma sociedade racional, a t\u00e9cnica, e n\u00e3o a pol\u00edtica, deveria ser a base de todas as decis\u00f5es: ent\u00e3o, dever\u00edamos ter bons gestores e n\u00e3o pol\u00edticos. Tudo uma quest\u00e3o de m\u00e9rito.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Aqui n\u00e3o vemos apenas um problema da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, mas de todo o pensamento dial\u00e9tico Direita x Esquerda: as teorias da Direita pressup\u00f5em um \u201cEstado m\u00ednimo\u201d e as da Esquerda esperam um \u201cEstado participativo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\"><strong>A<\/strong><strong> \u201cEsquerda\u201d<\/strong> favorece o controle estatal da economia e a interfer\u00eancia ativa do governo em todos os setores da vida social, colocando o ideal igualit\u00e1rio acima de outras considera\u00e7\u00f5es de ordem moral, cultural, patri\u00f3tica ou religiosa.&nbsp;J\u00e1 <strong>a \u201cDireita\u201d<\/strong> favorece a liberdade de mercado, defende os direitos individuais e os poderes sociais intermedi\u00e1rios contra a interven\u00e7\u00e3o do Estado e coloca o patriotismo e os valores religiosos e culturais tradicionais acima de quaisquer projetos de reforma da sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Com isto, fica claro que a vis\u00e3o do Renato \u00e9 apenas uma vis\u00e3o de Esquerda, tentando encontrar argumentos que justifiquem a fala da Marilena. N\u00e3o que ele n\u00e3o tenha raz\u00e3o em algumas cr\u00edticas a respeito da ideia da \u201cmeritocracia\u201d, t\u00e3o propalada atualmente pelos adeptos do neoliberalismo&#8230; apenas que existe uma tend\u00eancia ideol\u00f3gica de \u201cdemonizar\u201d o conceito do m\u00e9rito, porque ele vai de encontro ao pensamento socialista do igualitarismo total e absoluto! Se f\u00f4ssemos viajar na teoria da Marilena, ser\u00edamos todos oper\u00e1rios com maior poder de compra, trabalhando felizes pelo sentido marxista: \u201cO trabalho \u00e9 a ess\u00eancia da express\u00e3o da vida humana\u201d!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;N\u00e3o vou discorrer sobre a quest\u00e3o das diferen\u00e7as entre as classes m\u00e9dias europeia, americana e brasileira, para n\u00e3o estender demasiadamente o tema. Posso deixar isto para outra ocasi\u00e3o, porque percebo que o Renato est\u00e1 apenas tentado justificar e confirmar a teoria da Marilena&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">E, para provar sua teoria, Renato escreve que \u201cas classes brasileiras alta e baixa (os nossos ricos e pobres) tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o meritocr\u00e1ticas\u201d: \u201cA classe alta \u00e9 patrimonialista; um filho de rico herda bens, empresas e dinheiro, n\u00e3o precisa fazer sua vida pelo m\u00e9rito pr\u00f3prio, portanto, ser meritocrata seria um contrassenso\u201d; esta teoria podia ser verdadeira na \u00e9poca das monarquias e do feudalismo, onde a estrutura social era extremamente r\u00edgida e determinada, na maioria das vezes, pelo nascimento. Mas atualmente temos outra realidade completamente diferente! Como exemplo, veja esta reportagem: \u201cPara ficar rico no Brasil, a hora \u00e9 agora! A previs\u00e3o \u00e9 do especialista em mercado de luxo Claudio Diniz, autor do livro \u201cO Mercado de Luxo no Brasil: Tend\u00eancias e Oportunidades\u201d. Segundo o consultor, uma pessoa ficar\u00e1 milion\u00e1ria a cada 27 minutos no pa\u00eds, em 2013. Levantamento do Credit Suisse mostra que, atualmente, a cada 50 minutos um brasileiro sobe para este patamar. \u201cNo ano que vem, ser\u00e3o 271 novos milion\u00e1rios por dia no Brasil e as chances de ficar rico s\u00e3o maiores aqui do que na \u00cdndia, China e R\u00fassia\u201d, prev\u00ea Diniz. Estima-se que j\u00e1 existam 317 mil rica\u00e7os no Brasil e que este n\u00famero dever\u00e1 chegar a 815 mil em 2017.\u201d<sup>4<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;E esta: \u201cGera\u00e7\u00e3o Champagne: quem s\u00e3o os novos ricos brasileiros. Nascem 23 novos milion\u00e1rios (defini\u00e7\u00e3o: detentor de pelo menos um milh\u00e3o de reais, equivalentes a quase 400 mil euros) por dia, quase um por hora, no Brasil, desde 2007, anuncia a revista Forbes.\u201d<sup>5<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;E n\u00e3o tem como dizer que estes novos ricos n\u00e3o se classificam como \u201cmerecedores\u201d de suas riquezas!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">E o que dizer de pessoas como Samuel Klein (Casas Bahia), Guilherme Leal (Natura), Antonio Saraiva (Habib\u00b4s), Marcel Telles (3G), Luiza Trajano (Magazine Luiza) e Flavio Augusto da Silva (Wise Up)?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Quem quiser, que leia a hist\u00f3ria destas pessoas no site em quest\u00e3o, que conclui com as seguintes palavras: \u201cSe analisarmos a vida dessas e de outras figuras de sucesso, encontraremos uma caracter\u00edstica fundamental: a capacidade de se levantar em momentos de frustra\u00e7\u00e3o e fracasso. Muitas vezes, o \u201cN\u00e3o\u201d \u00e9 a melhor oportunidade para conseguir um \u201cSim\u201d, desde que se reveja o que foi feito e se trabalhe com afinco pelos objetivos tra\u00e7ados. A mensagem final \u00e9 que todos podem vencer, desde que com muita disposi\u00e7\u00e3o para trabalhar. N\u00e3o se trata apenas de se tornar um milion\u00e1rio (ou bilion\u00e1rio, como alguns dos exemplos acima), mas acima de tudo conseguir transformar dificuldades em vit\u00f3rias pessoais. Obrigado e at\u00e9 a pr\u00f3xima.\u201d<sup>6<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Finalizando a quest\u00e3o do m\u00e9rito no caso dos ricos, quem nunca ouviu a express\u00e3o: \u201cPai rico, filho nobre, neto pobre\u201d?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Quantas fam\u00edlias ricas na primeira metade do s\u00e9culo XX j\u00e1 n\u00e3o o s\u00e3o mais agora em 2014? Quantas fam\u00edlias souberam vencer os conflitos internos de poder, gest\u00e3o e sucess\u00e3o, mas, principalmente, evitar os males de valores, atitudes e h\u00e1bitos mesquinhos e arrogantes, do tipo \u201cter o rei na barriga\u201d? O analista desta quest\u00e3o escreve ainda: \u201cPai rico + filho nobre implica neto pobre. Ou seja, um pai rico que n\u00e3o souber educar (financeiramente inclusive) seu filho, que n\u00e3o transmita valores de preserva\u00e7\u00e3o, responsabilidade, p\u00e9 no ch\u00e3o, merecimento, obrigatoriamente ter\u00e1 filhos nobres e, consequentemente, netos pobres.\u201d Ou seja, uma pessoa pode, sim, nascer em fam\u00edlia rica, mas permanecer rico seria uma quest\u00e3o de compet\u00eancia, ou seja, de merecimento!<sup>7<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Al\u00e9m disso, de onde o autor tirou a ideia de que os pobres n\u00e3o cr\u00eaem na meritocracia? Ele mesmo se desmente, ao escrever: \u201cPara a classe pobre o m\u00e9rito nunca foi solu\u00e7\u00e3o; ela vive travada pela falta de oportunidades, de condi\u00e7\u00f5es ou <span style=\"text-decoration:underline;\">pelo limitado potencial individual<\/span>.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Os exemplos citados de novos ricos mostram que muitas pessoas, inclusive grandes bilion\u00e1rios antigos como On\u00e1sis e Matarazzo fizeram suas fortunas do nada! Quando eu pedia dinheiro para meu pai, ele sempre dizia \u201cvoc\u00ea pensa que eu sou o Matarazzo?\u201d. Esta era uma frase comum dos pais de fam\u00edlia brasileiros do in\u00edcio do s\u00e9culo 20 para reclamar dos excessos de gastos de sua prole. Alto e elegante, Francesco Matarazzo tornou-se sin\u00f4nimo de homem rico e um exemplo do \u201cimigrante que deu certo\u201d. Os produtos das Ind\u00fastrias Reunidas Francesco Matarazzo (IRFM) eram praticamente onipresentes no dia a dia dos brasileiros. Seu conglomerado, nos anos 1930, s\u00f3 faturava menos que o Governo Federal, o Departamento Nacional do Caf\u00e9 e o estado de S\u00e3o Paulo. O empres\u00e1rio foi um dos homens mais ricos da Am\u00e9rica do Sul na sua \u00e9poca e, quando morreu, tinha um patrim\u00f4nio estipulado em 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares se os valores fossem corrigidos para os padr\u00f5es atuais. Matarazzo, no entanto, come\u00e7ou como um simples mascate e dono de uma loja de secos e molhados em Sorocaba, interior de S\u00e3o Paulo, depois de sofrer um preju\u00edzo.&nbsp; Quando veio ao Brasil, em 1881, fugindo da crise econ\u00f4mica na It\u00e1lia, a tonelada de banha de porco que trazia como capital inicial para come\u00e7ar um neg\u00f3cio foi parar no fundo mar com a embarca\u00e7\u00e3o que levava toda a carga do navio.<sup>8<\/sup><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Mas, se f\u00f4ssemos alegar que \u201cs\u00e3o muito poucos que conseguem ficar bilion\u00e1rios vindo do nada\u201d, n\u00e3o estar\u00edamos justamente confirmando a ideia do merecimento?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Neste ponto, Renato confirma o pensamento socialista: \u201cE ela sabe que n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es pela via do m\u00e9rito individual para as dezenas de milh\u00f5es de brasileiros que vivem em condi\u00e7\u00f5es de pobreza, e que seguramente dependem das pol\u00edticas p\u00fablicas para melhorar de vida.\u201d Bingo! Para os pobres, que t\u00eam um \u201c<span style=\"text-decoration:underline;\">limitado potencial individual<\/span>\u201d, somente com a ajuda do Estado podem se fazer parte da classe m\u00e9dia t\u00e3o almejada pelas classes C e D, que n\u00e3o existem na cabe\u00e7a da Marilena!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">E, por fim, Renato confirma tamb\u00e9m a ideia inata e ancestral do merecimento: \u201cAli\u00e1s, tenho certeza de que todos n\u00f3s educamos nossos filhos e tentamos agir no dia a dia com base na valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito. N\u00f3s valorizamos o esfor\u00e7o e a responsabilidade, educamos nossas crian\u00e7as para serem independentes, para fazerem por merecer suas conquistas, motivamo-as para o estudo, para terem uma carreira honrosa e digna, para buscarem por m\u00e9ritos pr\u00f3prios o seu lugar na sociedade.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Poder\u00edamos terminar aqui os nossos questionamentos (que j\u00e1 foram longe demais), mas o Renato continua sua disserta\u00e7\u00e3o, buscando destruir o valor do merecimento e abalizar a teoria marxista da Marilena: \u201cEnt\u00e3o, o que h\u00e1 de errado com a meritocracia, como pode ela tornar algu\u00e9m reacion\u00e1rio?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;A justificativa que se segue \u00e9 a base do pensamento socialista: \u201cBem, como o m\u00e9rito est\u00e1 fundado em val\u00eancias individuais, ele serve para aprecia\u00e7\u00f5es individuais e n\u00e3o sociais. A menos que se pense, \u00e9 claro, que uma sociedade seja apenas um agregado de pessoas. Ent\u00e3o, uma coisa \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito como princ\u00edpio educativo e formativo individual, e como ju\u00edzo de conduta pessoal, outra bem diferente \u00e9 t\u00ea-lo como plano de governo, como fundamento \u00e9tico de uma organiza\u00e7\u00e3o social. Neste plano \u00e9 que se situa a meritocracia, como um fundamento de organiza\u00e7\u00e3o coletiva, e a\u00ed \u00e9 que ela se torna reacion\u00e1ria e perversa.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;Ou seja, em um pensamento socialista, a meritocracia \u00e9 um abuso, um erro, uma abomina\u00e7\u00e3o, porque privilegia o indiv\u00edduo que vence pelos esfor\u00e7os pr\u00f3prios, em detrimento da igualdade social de toda a popula\u00e7\u00e3o. Apenas isto&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Assim, como conclui o Renato, \u201cvou gastar as \u00faltimas linhas deste texto para oferecer algumas raz\u00f5es para mostrar porqu\u00ea a meritocracia N\u00c3O \u00e9 um fundamento perverso de organiza\u00e7\u00e3o social\u201d:&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;a) A meritocracia, que prop\u00f5e uma ordem social baseada nas diferen\u00e7as de predicados pessoais (habilidade, conhecimento, compet\u00eancia, etc.), n\u00e3o causa uma destrui\u00e7\u00e3o dos valores sociais universais (direito \u00e0 vida, justi\u00e7a, liberdade, solidariedade, etc.). Eu me pergunto como e porqu\u00ea uma sociedade meritocr\u00e1tica atentaria contra estes valores ou poderia obstruir o acesso de muitos a direitos fundamentais? Ser\u00e1 que o Renato est\u00e1 confundindo pessoas que cresceram social e economicamente por m\u00e9rito pr\u00f3prio com psicopatas que pisar\u00e3o e escravizar\u00e3o naqueles que est\u00e3o abaixo deles? Ser\u00e1 que ele est\u00e1 querendo dizer que todos os empres\u00e1rios s\u00e3o psicopatas corporativos? Como um novo rico atentaria ao direito \u00e0 vida, \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 solidariedade? Multibion\u00e1rios como Bill Gates n\u00e3o investem bilh\u00f5es de d\u00f3lares em projetos sociais?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;b) Realmente, neste ponto eu concordo, quando Renato escreve que \u201ca meritocracia exacerba o individualismo e a intoler\u00e2ncia social, supervalorizando o sucesso e estigmatizando o fracasso, bem como atribuindo exclusivamente ao indiv\u00edduo e \u00e0s suas val\u00eancias as responsabilidades por seus sucessos e fracassos.\u201d Aqui entra a ideologia de \u201cmatar um le\u00e3o por dia\u201d e o discurso dos \u201cvencedores x perdedores\u201d do capitalismo selvagem, aspecto que considero extremamente patol\u00f3gico e desumano. Mas gera tamb\u00e9m no \u201cfracassado\u201d a inveja e o \u00f3dio de classes, t\u00e3o valorizado por Lula e pelos socialistas que desejam a morte das \u201celitas brancas, dos burgueses e dos exploradores dos pobres\u201d!&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;c) A meritocracia N\u00c3O \u201cesvazia o espa\u00e7o p\u00fablico, o espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o social das ordens coletivas, e tende a desprezar a atividade pol\u00edtica, transformando-a em uma esp\u00e9cie de excresc\u00eancia disfuncional da sociedade, uma atividade sem legitimidade para a cria\u00e7\u00e3o destas ordens coletivas.\u201d A meritocracia apenas se refere ao fato de que uma pessoa conquista seu lugar no mundo por seus m\u00e9ritos pr\u00f3prios, sem criar uma revolta e um ataque aos projetos sociais de um governo. Normalmente os socialistas confundem meritocracia com ego\u00edsmo, vaidade e voracidade, o que \u00e9 real nas pessoas patol\u00f3gicas, mas n\u00e3o em todos que t\u00eam m\u00e9ritos pr\u00f3prios!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Renato tenta ainda justificar a sua teoria escrevendo: \u201cSupondo uma sociedade isenta de jogos de interesse e de ambiguidades de valor, prev\u00ea uma ordem social que siga apenas a racionalidade t\u00e9cnica do merecimento e do desempenho, e n\u00e3o a racionalidade pol\u00edtica das disputas, das conversa\u00e7\u00f5es, das negocia\u00e7\u00f5es, dos acordos, das coalis\u00f5es e\/ou das concerta\u00e7\u00f5es, algo improv\u00e1vel em uma sociedade democr\u00e1tica e pluralista.\u201d Mas eu pergunto, aonde em nosso pa\u00eds existe esta sociedade \u201cinsenta de jogos de interesse e de ambiguidades de valor\u201d? Qual partido mais que o PT fez no Brasil tantas \u201cpol\u00edticas das disputas, das conversa\u00e7\u00f5es, das negocia\u00e7\u00f5es, dos acordos, das coalis\u00f5es e\/ou das concerta\u00e7\u00f5es\u201d? Este ponto n\u00e3o deveria nem ter sido escrito, quanto mais comentado!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;d) N\u00c3O \u00e9 a meritocracia que \u201cesconde, por tr\u00e1s de uma aparente e aceit\u00e1vel \u201c\u00e9tica do merecimento\u201d, uma perversa \u201c\u00e9tica do desempenho\u201d; quem faz isto \u00e9 uma sociedade de consumo que vai de acordo com as expectativas do mercado! E o Renato comprova, justamente, que o que eleva uma pessoa socialmente nestes casos n\u00e3o \u00e9 o seu m\u00e9rito real, mas os interesses das massas, que normalmente, pelos exemplos citados, n\u00e3o fazem parte da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, mas das classes D e E: se o povo gosta de funk, futebol e cerveja, que isto movimente a economia e a cultura; se o povo n\u00e3o l\u00ea M\u00e1rio Quintava nem ouve Vila Lobos, porque eles seriam estimulados pelo mercado consumista? Ele mesmo confirma isto, dizendo: \u201cNa m\u00fasica popular nem \u00e9 preciso exemplificar, a dist\u00e2ncia entre merecimento e desempenho de mercado \u00e9 abismal. Ent\u00e3o, neste mudo em que vivemos, valor e resultado, merecimento e desempenho nem sempre caminham juntos, e talvez raramente convirjam.\u201d Reconhecer a perversidade de um mercado de consumo, portando, N\u00c3O destr\u00f3i o crescimento individual por m\u00e9rito pessoal\u201d&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;e) Nem sempre a \u201cmeritocracia escamoteia as reais opera\u00e7\u00f5es de poder\u201d. Os fatores de \u201cavalia\u00e7\u00e3o e desempenho\u201d s\u00f3 s\u00e3o cruciais na meritocracia quando se trata de uma disputa por determinado lugar ou posi\u00e7\u00e3o entre duas ou mais pessoas. E mesmo que se considere o caso das cotas nos vestibulares, por exemplo, os que forem aprovados com m\u00e9dias mais baixas que os n\u00e3o cotizados ainda assim estar\u00e3o utilizando o crit\u00e9rio da meritocracia, porque tiveram melhor desempenho que os n\u00e3o aprovados! E se uma pessoa n\u00e3o chegar em um lugar p\u00fablico por m\u00e9rito pr\u00f3prio mas por interfer\u00eancia do governo, ainda aqui haver\u00e3o \u201crela\u00e7\u00f5es de poder\u201d definindo quem deve ou n\u00e3o ocupar tal posi\u00e7\u00e3o. Concordo quando Renato escreve que \u201cos poderes econ\u00f4mico e pol\u00edtico, n\u00e3o raras vezes, est\u00e3o por tr\u00e1s dos crit\u00e9rios avaliativos e dos \u201cbons\u201d desempenhos\u201d, mas neste caso n\u00e3o se aplica apenas ao capitalismo, j\u00e1 que no socialismo muitos cargos e posi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas s\u00e3o ocupados por \u201cindica\u00e7\u00e3o\u201d do superior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;f) A meritocracia N\u00c3O \u201c\u00e9 a \u00fanica ideologia que institui a desigualdade social com fundamentos \u201cracionais\u201d, e legitima pela raz\u00e3o toda a forma de domina\u00e7\u00e3o\u201d. A desigualdade social n\u00e3o \u00e9 criada por um \u201cfundamento racional\u201d; ela sempre existiu, desde os tempos dos imp\u00e9rios milenares at\u00e9 a atualidade. A origem da meritocracia, como j\u00e1 vimos, foi uma forma de desalojar do poder os escolhidos pelo fisiologismo pol\u00edtico e depois se estendeu a outras \u00e1reas sociais. As desigualdades sociais das castas criadas pelos hindus, por exemplo, t\u00eam fundamentos culturais mas n\u00e3o depende da meritocracia; as desigualdades de cor tiveram respaldo cient\u00edfico na Europa do s\u00e9culo XIX, sem levar em conta as quest\u00f5es de m\u00e9ritos individuais; as desigualdades raciais tiveram justificativa para o exterm\u00ednio dos judeus na Alemanha de Hitler, sem incluir o m\u00e9rito como base da sele\u00e7\u00e3o racial e religiosa!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;g) A meritocracia N\u00c3O \u201csubstitui a racionalidade baseada nos valores, nos fins, pela racionalidade instrumental, baseada na adequa\u00e7\u00e3o dos meios aos resultados esperados\u201d. E a meritocracia N\u00c3O d\u00e1 prefer\u00eancia a um Paulo Coelho em vez de um M\u00e1rio Quintana; quem faz isto \u00e9 o mercado de consumo, que induz, seduz e cede aos desejos da popula\u00e7\u00e3o consumista!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Al\u00e9m disso, dizer que o fato dos \u201cestudantes geralmente n\u00e3o estudarem para aprender, mas para passar em provas\u201d \u00e9 um problema criado pela meritocracia, seria o mesmo que dizer que sem a meritocracia todos os estudantes estudariam para aprender e que os cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e professores universit\u00e1rios produziriam conhecimentos e publicariam artigos e livros apenas para fazerem a diferen\u00e7a no mundo e para terem um significado na pesquisa e na vida intelectual do pa\u00eds&#8230; Isto, sim, poderia ser chamado de ingenuidade&#8230; Os socialistas costumam acreditar que todos os oprimidos s\u00e3o pessoas boas, bem intencionadas, honestas e compassivas&#8230; mas esta ideia ut\u00f3pica acaba quando estas pessoas chegam no poder, e acontece o que temos visto nestes 12 anos de PT no poder: corrup\u00e7\u00e3o, m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o, mentiras e decep\u00e7\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;h) Por fim, a meritocracia N\u00c3O \u201cdilui toda a subjetividade e complexidade humana na ilus\u00f3ria e reducionista objetividade dos resultados e do desempenho\u201d. Justamente o contr\u00e1rio, \u00e9 a meritocracia que inclui \u201ctoda a subjetividade e complexidade humana\u201d na quest\u00e3o do desempenho individual e \u00e9 o Estado Socialista que \u201ciguala tudo por baixo\u201d, tornando toas as pessoas em simples \u201coper\u00e1rios consumidores\u201d. E o verso \u201ccada um de n\u00f3s \u00e9 um universo\u201d do Raul Seixas N\u00c3O \u00e9 \u201cuma verdadeira aberra\u00e7\u00e3o para a meritocracia\u201d: para ela, cada um de n\u00f3s \u00e9 \u00fanico e complexo e deve ser respeitado por esta singela, em todos os seus potenciais de express\u00e3o, quer sejam culturais, sociais ou espirituais!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">E justamente pela \u201cnatureza humana ser subjetiva e complexa e suas intera\u00e7\u00f5es sociais serem intersubjetivas\u201d, na meritocracia h\u00e1 espa\u00e7o para todas as subjetividades e complexidades, respeitando-se todo o espa\u00e7o para o pr\u00f3prio ser humano, como indiv\u00edduo \u00fanico e inigual\u00e1vel e n\u00e3o apenas parte de uma massa de manobras de um Estado aparentemente humano, mas que abaixo da espuma esconde um grande desejo de poder e de controle, sem que ningu\u00e9m se diferencie acima dos outros e que ameace o poder totalit\u00e1rio da sua \u201cbenevol\u00eancia\u201d!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Para finalizar, o sonho dos governos socialistas \u00e9 que todos os povos fossem como os Sete An\u00f5es da Branca de Neve, que acordassen felizes e fossem cantando para a mina de pedras preciosas, cantando:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;\u201cA nossa enxarpe, a nossa p\u00e1,<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">N\u00f3s usamos pra cavar&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Cavando a nossa mina&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Noite e dia sem parar&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">N\u00e3o vamos ficar ricos n\u00e3o&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">N\u00f3s nunca temos essa miss\u00e3o&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">De cavar&#8230; cavar&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">\u00c9 nossa distra\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Cavando a nossa mina&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Noite e dia sem parar&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Brilhantes e outras pedras&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Poderemos encontrar&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Se temos forte vai haver&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Milh\u00f5es de pedras pra escolher&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">E com tanta pedra pra escolher&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">O que \u00e9 que se vai fazer?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Paulo Maciel<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">10\/04\/2015<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#000000;\">Fontes:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"color:#000000;\">1. http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Spoils_system<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color:#000000;\">2. http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Meritocracy<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color:#000000;\"><em>3. http:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/rodrigo-constantino\/tags\/marilena-chaui\/<\/em><\/span><\/li>\n<li>4. http:\/\/www.meioemensagem.com.br\/home\/marketing\/noticias\/2012\/11\/28\/Brasil&#8211;um-milion-rio-a-cada-27-minutos.html<\/li>\n<li>5. http:\/\/bahiaprime.com.br\/prime-money\/geracao-champagne-quem-sao-os-novos-ricos-brasileiros.html<\/li>\n<li>6. http:\/\/dinheirama.com\/blog\/2014\/05\/09\/6-milionarios-brasileiros-fizeram-fortuna-do-zero\/<\/li>\n<li><em id=\"__mceDel\">Leia tamb\u00e9m http:\/\/exame.abril.com.br\/negocios\/noticias\/dez-milionarios-e-bilionarios-que-comecaram-do-nada#10<\/em><\/li>\n<li>7. http:\/\/blogs.diariodepernambuco.com.br\/licoesdebolso\/pai-rico-filho-nobre-neto-pobre\/<\/li>\n<li><em id=\"__mceDel\">8. http:\/\/economia.terra.com.br\/vida-de-empresario\/francesco-matarazzo-foi-de-mascate-a-5-mais-rico-do-mundo,883785290daa7410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html<\/em><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> O texto \u201cDesvendando a espuma: o enigma da classe m\u00e9dia brasileira\u201d de Renato Santos de Souza (UFSM\/RS) foi muito bem escrito e desenvolvido, mas tem um er<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":595,"menu_order":5,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-322","page","type-page","status-publish","hentry","article-is-loop","article-is-not-main-loop","article-is-standard","article-is-page"],"rankMath":{"parentDomain":"mesaismo.com.br","noFollowDomains":[],"noFollowExcludeDomains":[],"noFollowExternalLinks":false,"featuredImageNotice":"A 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