A teoria de Szondi para a política

A principal crença da polarização cultural humana é a luta entre o Bem e o Mal e todos acreditam que “um dia o Bem vencerá o Mal” e que todos estão “do lado do Bem”.

Historicamente para o Ocidente a primeira cultura que trouxe esta ideia foi o Zoroastrismo, com possíveis raízes datando do II milênio a.C., e que entrou na história registrada por volta de meados do século VI a.C. Serviu como religião oficial dos antigos impérios iranianos por mais de um milênio mas declinou a partir do século VII como resultado direto da conquista árabe-muçulmana da Pérsia (633–654), o que levou à perseguição em larga escala do povo zoroastriano.1

O Zoroastrismo tem uma cosmologia dualista de bem e mal, mas dentro da estrutura de uma ontologia monoteísta e uma escatologia que prediz a conquista final do mal pelo bem. Conforme esta religião o profeta Zoroastro recebeu a revelação que o deus Ahura Mazda estava em batalha contra o deus Arimã. Este era um deus mal, enquanto aquele era um deus bom. Conforme aquela religião, no ‘Fim dos Tempos’ a luta entre os deus será marcada pela vitória de deus Arimã e os que seguirem o caminho do mal receberão como castigo o inferno. Por isso futuramente o deus Arimã foi associado ao Satanás judaico, o Lúcifer cristão e ao Íblis islâmico.

O zoroastrismo exaltava a divindade incriada e benevolente Ahura Mazda (‘Senhor da Sabedoria’) como seu ser supremo. Historicamente, as características únicas do zoroastrismo, como seu monoteísmo, messianismo, crença no livre arbítrio e julgamento após a morte, concepção de céu, inferno, anjos e demônios, entre outros conceitos, podem ter influenciado outros sistemas religiosos e filosóficos, incluindo as religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) e o Gnosticismo, o Budismo e a filosofia grega.1

Esta dualidade entre o Bem e o Mal se refletiu também na busca de respostas na Filosofia ocidental com o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) dizendo que “os homens são maus por natureza (‘o homem é o lobo do próprio homem’), pois possuem um poder de violência ilimitado” e o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) dizendo que “o ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe”.

Esta crença na polarização “Bem x Mal” absolutos se resolve facilmente pela compreensão de que isso é uma construção cultural e que o bem e o mal se misturam em espectros infinitos: o ser humano nasce com predisposições tanto para a bondade quanto para a maldade e que se apresentam com expressões culturais, locais e temporais dependentes de cada situação e indivíduo!

O que existe é uma interseção entre a Biologia e a Cultura, em graus complexos e dinâmicos. Antigamente havia a ideia da “tábula rasa”, onde as pessoas nasciam como um “quadro em branco” e as suas experiências de vida imprimiriam as suas características posteriores (o aprendizado). Tábula rasa é a tradução para a expressão em latim ‘tabula rasa’, que significa literalmente “tábua raspada”, e tem o sentido de “folha de papel em branco”.2

Como metáfora, o conceito de tábula rasa foi utilizado por Aristóteles (em oposição a Platão) e difundido principalmente por Alexandre de Afrodísias, para indicar uma condição em que a consciência é desprovida de qualquer conhecimento inato – tal como uma folha em branco, a ser preenchida. Esta ideia continuou a ser desenvolvida pela filosofia da Grécia Antiga; a epistemologia da escola estoica enfatiza que a mente inicia vazia, mas adquire conhecimento à medida que o mundo exterior a impressiona.2

Este argumento da tábula rasa foi usado pelo filósofo inglês John Locke (1632-1704), considerado como o protagonista do Empirismo e do Liberalismo. Locke detalhou a tese da tábula rasa em seu livro “Ensaio acerca do Entendimento Humano”, de 1690. Para ele, todas as pessoas nascem sem conhecimento algum (i.e. a mente é, inicialmente, como uma “folha em branco”), e todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido através da experiência. A partir do século XVII, o argumento da tábula rasa foi importante não apenas do ponto de vista da filosofia do conhecimento, ao contestar o Inatismo de Descartes, mas também do ponto de vista da filosofia política, ao defender que, não havendo ideias inatas, todos os homens nascem iguais. Forneceu assim a base da crítica ao Absolutismo e da contestação do poder como um direito divino ou como atributo inato.2

Opondo-se a Hobbes, Locke acreditava que se tratando de Estado-natureza, os homens não vivem de forma bárbara ou primitiva. Para ele, há uma vida pacífica explicada pelo reconhecimento dos homens por serem livres e iguais.

Na Psicologia os três nomes mais importantes ligados a este tema são: Sigmund Freud (1856 – 1939), Carl Jung (1875 – 1961) e Leopold Szondi (1893 – 1986).

Estes psicólogos trouxeram o conceito de vários níveis do inconsciente humano: 1. O Biográfico, a partir das experiências pessoais (Freud), 2. O Coletivo (Jung) e 3. O genético familiar (Szondi).

Freud, o “Pai da Psicanálise” acreditava que já nascemos com alguma coisa semelhante ao Inconsciente Coletivo de Jung  Nenhuma outra parte da teoria de Freud foi mais criticada e rejeitada do que a ideia da sobrevivência da “herança arcaica.” A civilização, ou a cultura, para Freud, é determinada não só pelas disposições e instintos, mas, também, através de conteúdos ideacionais provenientes da memória das experiências de gerações anteriores. O indivíduo humano ainda se encontra em identidade arcaica com a espécie. Freud tentou reconstruir a pré-história da humanidade, baseado inclusive nos trabalhos de Darwin, que falaram da horda primitiva e do assassinato dos pais despóticos que dominavam essas hordas. Para ele, os machos jovens se uniram e assassinaram o pai tirânico e depois, em grande regozijo, se permitiram todas as liberdades negadas pela força física do pai com as mulheres do grupo. Seguiram-se lutas fratricidas e o advento de desgraças coletivas. Embora prevalecesse o ódio, o sentimento em relação ao pai era ambivalente e, pouco a pouco, os sentimentos positivos foram aparecendo. Este sentimento, e os temores que o pai mesmo morto pudesse emergir e vingar-se, produziram o totemismo, a primeira religião. Com a repetição destes fatos em inúmeras hordas, o pai morto adquiriu, com o tempo, a dimensão de um espírito sobrenatural, concomitantemente amado e odiado. Os homens, após um sem número de repetições catastróficas destes eventos, e levados por temores intensos, sentimentos de culpa e desejos de reparação, foram guiados a um pacto coletivo, o primeiro código moral.  Freud supõe que o crime primordial – o parricídio e o sentimento de culpa que lhe é concomitante, reproduzem-se em formas modificadas ao longo da história: no confronto das velhas e das novas gerações, nas revoluções e nas rebeliões contra as autoridades estabelecidas. O pecado original captado por Paulo, o judeu romano, seria a memória arcaica deste crime – o parricídio, que não foi contra Deus e sim contra o Homem e que não foi pecado porque foi cometido contra um que era, ele próprio culpado: o pai despótico.3

E segundo Jung o Inconsciente Coletivo não deve sua existência às experiências pessoais; ele não é adquirido individualmente. Jung faz a distinção: o Inconsciente Pessoal é representado pelos sentimentos e ideias reprimidas, desenvolvidas durante a vida de um indivíduo. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, ele é herdado. É um conjunto de sentimentos, pensamentos e lembranças compartilhadas por toda a humanidade.

O inconsciente coletivo é um reservatório de imagens latentes, chamadas de arquétipos ou imagens primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. A pessoa não se lembra das imagens de forma consciente, porém, herda uma predisposição para reagir ao mundo da forma que seus ancestrais faziam. Sendo assim, a teoria estabelece que o ser humano nasce com muitas predisposições para pensar, entender e agir de certas formas. Por exemplo, o medo de cobras pode ser transmitido através do inconsciente coletivo, criando uma predisposição para que uma pessoa tema as cobras. No primeiro contato com uma cobra, a pessoa pode ficar aterrorizada, sem ter tido uma experiência pessoal que causasse tal medo, e sim derivando o pavor do inconsciente coletivo. Mas nem sempre as predisposições presentes no inconsciente coletivo se manifestam tão facilmente.4

Mas a visão mais aceita atualmente no meio científico é de que há uma complementaridade entre a biologia e a cultura. Ou seja: todas as pessoas têm certos aspectos naturais/predisposições e também tem a cultura, o aprendizado em sociedade.

Eu costumo dizer que “a Realidade do Universo é a soma de todos os conhecimentos que já possuímos e de todos que ainda iremos descobrir” e que “o ser humano é a soma de todas as teorias que existem e de todas que ainda serão descobertas”. Este entendimento, baseado na Teoria da Complexidade, estarei desenvolvendo no conceito que chamo de “Multimatrix” em outro canal!

Nesta questão da Complexidade podemos olhar para a polarização do Bem x Mal em duas dimensões:

  1. Metafísica, no sentido religioso do termo, com as polaridades “Deus x Diabo” e “anjos x demônios”. Para a maioria da Humanidade tudo se resume a esta dualidade, onde nos encaixamos como “almas” ou “espíritos” criados “à imagem e semelhança de Deus” e encarnados nesta Terra onde se desenrola o nosso drama pessoal e coletivo. O que todos precisamos fazer é escolhermos o lado do Bem e lutarmos contra o Mal, que tenta nos iludir e atrair e nos prender em sofrimentos eternos depois da morte. Para as religiões reencarnacionistas, a escolha do Mal gera “dor e sofrimento”, como na máxima budista, com sucessivas vidas até aprendermos a escolher o lado certo do amor, da bondade e do altruísmo.
  2. Física, no sentido material do Universo com suas complexas leis e no sentido das Sociedades que formamos, dos Estados e das nossas relações com o Meio ambiente. Aqui aprendemos que somos mais fortes quando nos unimos para vencermos as dificuldades materiais e as tribos inimigas. E por isso nos agrupamos em famílias, clãs, tribos, povos, nações e Estados. E a tragédia é que todos temos certeza que estamos do lado certo do Bem, do justo e do ético! O inimigo é sempre “o outro”, o diferente.  

Finalmente, para fechar esta página, vou comentar a teoria da “Psicologia do Destino” do médico, psicólogo, psiquiatra e endocrinologista nascido na Hungria, em 11/03/1893. Partindo de suas pesquisas com pacientes psiquiátricos ele estabeleceu a sua “teoria biogenética das pulsões, e desenvolveu um sistema de avaliação restabelecendo a unidade entre a Psicologia e a Biologia, denominado “Análise do Destino”. Aqui, “destino é o conjunto das possibilidades, herdadas e livremente elegíveis, que nossa existência oferece.

Para Szondi, o inconsciente humano deveria ser analisado nas 03 camadas já citadas: 1. Inconsciente Pessoal (Freud), que inclui todas as manifestações pulsionais, pessoais e reprimidas. 2. Inconsciente Coletivo (Jung), com todos os arquétipos humanos. 3. Inconsciente Familiar (Szondi), com as pretensões específicas dos ancestrais.

Assim, cada ser humano traz, já ao nascer, “moldes” ou “figuras” ancestrais inconscientes como padrões de comportamento: os antepassados, carregados no patrimônio hereditário esforçam-se por  manifestarem-se (“pretensão dos ancestrais”).

A Análise do Destino é, pois, uma tendência da Psicologia Profunda que procura, antes de tudo, “tornar conscientes os apelos ancestrais inconscientes. Por ela, a pessoa é levada a confrontar-se com as possibilidades que seu destino lhe oferece e posto diante da alternativa de escolha de uma vida pessoal mais adequada”.

Os fatores que condicionam o destino compulsivo (coercitivo/obrigatório) são: 1. Funções hereditárias dos gens; 2. Funções pulsionais e afetivas; 3. Funções sociais; 4. Ambiente mental ou cosmoconceitual em que a pessoa nasceu, por força do destino.

Já os fatores que condicionam o destino de livre escolha são: 1. Funções do ego; 2. Funções da mente. Estas funções interagem e completam-se recíproca e dialeticamente, condicionando e configurando o destino do indivíduo. Se estas funções se paralisam, o destino torna-se coercitivo; se elas se movem, entretanto, pela força do ego, ele é de livre escolha: “O ego é o executor da escolha.

Para quem questiona ou quer estudar mais profundamente a questão da genética relacionada ao comportamento, eu cito um resumo de estudos nesta área:

“O risco de TAPS (Transtorno de Personalidade Antosocial) é em grande parte devida a fatores genéticos, mais do que o ambiente compartilhado … O risco de TAPS é aumentado em cinco vezes para pacientes do primeiro grau de homens com TAPS, seja vivendo juntos ou adotados separados… Uma metanálise de 51 estudos de gêmeos e de adoção de comportamento antissocial encontrou evidência de influências do ambiente compartilhado (15%), como também efeitos genéticos significativos (30%) … Um tipo de transtorno de personalidade antissocial chamado de psicopatia tornou-se recentemente o alvo da pesquisa genética… Um relato de seguimento também evidenciou  que a sobreposição entre personalidade psicopática  e comportamento antissocial é em grande parte de origem genética.”5

 “O melhor estudo de gêmeos do comportamento criminal incluiu gêmeos nascidos na Dinamarca de 1881 a 1910. Foi encontrada evidencia de influencia para condenações criminais em mais de mil pares de gêmeos, com uma concordância global de 52% para os gêmeos idênticos do sexo masculino e 30% para gêmeos fraternos do sexo masculino. … Em 13 estudos de gêmeos sobre a criminalidade adulta, os idênticos são consistentemente mais parecidos do que os fraternos. As concordâncias medias para gêmeos idênticos e fraternos são 52% e 21%, respectivamente.”6    

Szondi, para fins práticos, dividiu os perfis humanos em diferentes “Classes” que chamou de “Vetores”, compostos em número de quatro, que são: (S) – Vetor da “Sexualidade”; (P) – Vetor “Paroxismal” ou dos “Afetos” ou ainda chamado de “Surpresa”; (E) – Vetor do “Ego”, síntese da personalidade; (C) – Vetor do “Contato”.

Estes Vetores instintivos são constituídos por “quatro instintos ou aprioris independentes, primitivos, inerentes a cada pessoa, em quantidade e qualidade, e individualmente variáveis, como possibilidade de destino”. Os quatro instintos básicos para ele, comparando com Freud, são: o sexual (ID), de surpresa, paroxístico ou crise (Super Ego), do Eu (Ego), e de contato social (ID).

O vetor S ou da sexualidade, é formado pelo instinto sexual, que repercute na vida sexual, preferências sexuais, mundo das percepções, sublimações culturais ou civilizadoras, ternura versus agressão, ou mitologicamente Mercúrio ou Hermes ou Eros x Thanatos (ID).

O vetor P – paroxismal ou instinto de surpresa, é a área dos afetos, crises, angústias, fobias, senso ético-moral, bem x mal, senso de valor, supervalorização x desvalorização, religiosidade e inteligência (Super Ego).

O vetor SCH – Ego, é formado pelo instinto do Eu ou Ego. É a síntese dos demais instintos, ou forma os tipos de Eu, é a integração entre o Super-Ego e o Id que se expressa, pelo Ego (Ego).

E o vetor C de contato, ou instinto de contato, que é a área dos relacionamentos, da atenção das ligações (ID).

Para os efeitos da teoria do Mesaísmo e da presença dos líderes patológicos ao longo da história humana, os pensamentos de Szondi são muito adequados neste momento no que concerne à “pulsão sadomasoquista” do Instinto Sexual e à “pulsão epiléptica” do Vetor Paroxismal:

Eros e Thanatos – O Instinto Sexual. O Vetor S.

A essência e a psicologia do Fator Thanatos s.

A essência do fator s se radica na necessidade de destruição e de autodestruição, de sadismo e masoquismo, de atividade e passividade. É o fator sadomasoquista no sistema instintivo da análise do destino, o radical da destruição. Seu sinal vetorial s provém de sadismo.

A força que desune com violência as uniões existentes, que desfaz sem consideração as maiores unidades de vida, que rompe brutalmente fusões eróticas, que continuamente atua contra qualquer trabalho de unificação, que despedaça a unidade e deseja a morte para tudo o que vive e de pronto é capaz de originá-la, esta força instintiva brutal e assassina se agita no fator s.

Não existem no mundo a decomposição nem a desintegração, a destruição nem a desmembração, a dor e a morte, o crime e o suicídio sem a cooperação do fator s.

É o mais poderoso entre todos os elementos destrutivos e desintegrante; é o mais horrível de todos os espectros angustiosos; é o poder mais brutal de todas as potências mortais; é o que desde tempos imemoriais produz invasões e guerras na vida dos povos e todas as guerras internas na vida de cada indivíduo.7

Análises das reações s ambivalentes: ± s

Em essência esta reação significa o sadomasoquismo, e precisamente não só na vida sexual, senão em todos os aspectos de vida. No sexo, o prazer do sadomasoquista baseia-se em golpear e ser golpeado. Na vida cotidiana domina sempre a pergunta: “Quem está encima?”

Se por fim nesta associação sadomasoquista um logrou, com sua brutalidade atual, o posto de homem superior, então o outro, naturalmente, toma o posto do homem inferior, que se deixa torturar pelo mais forte. Porém no momento que este companheiro maltratado descobre que seu competidor se debilita, imediatamente toma o posto de sadista, e desde este instante martiriza ao que até então havia sido o torturador. Este jogo alternado leva a uma cadeia sadomasoquista de ferro forjado.

Em lugar da união pelo Eros (Amor) entrou, pelo sadomasoquismo, o Thanatos (Morte). Naturalmente que esta classe de “união” é anormal e com frequência cheia de disputas, de tétricos e refinados martírios, de astutos e mudos sofrimentos. Se um estranho deseja romper esta relação “verdugo e vítima”, então lhe atacarão imediatamente com brutalidade ambos os companheiros viribus unitis. E assim vivem, ano após ano, ligados a esta cadeia sadomasoquista, juntos como galés (forçados): mãe e filha, pai e filho, mãe e filho, pai e filha, marido e mulher, patrão e empregado, etc.

Quase não se lhes pode ajudar, inclusive muitas vezes nem com um tratamento de psicoterapia profunda. Sua vida instintiva afastou-se da vida do Eros pela do Thanatos e tornaram-se incapazes de compreender que estão unidos com um laço instintivo “falso”, que paulatinamente destrói a ambos. A causa deste afastamento na união é quase sempre a fuga do amor incestuoso.

Com frequência se reconhece aos sadomasoquistas por dois traços caracterológicos em seu comportamento: 1º., pela afetação, e 2º., por suas extravagâncias. Ambos são sintomas de compensação de uma união incestuosa reprimida.8

Aqui podemos ver claramente a explicação histórica da famosa passagem do Manifesto Comunista de Marx e Engels:

“A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burgueses de corporação e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.”

Bingo! Que resumo fantástico da teoria sadomasoquista de Szondi (“Quem está encima?”) na história da humanidade por Marx (“opressores e oprimidos”)!

A conclusão aqui é que a Humanidade sempre foi movida pelo desejo de “Poder sobre o outro”, num eterno jogo sadomasoquista onde o oprimido não é a vítima, mas a parte momentaneamente mais fraca desta relação mórbida!

Diz Szondi: “Se por fim nesta associação sadomasoquista um logrou, com sua brutalidade atual, o posto de homem superior, então o outro, naturalmente, toma o posto do homem inferior, que se deixa torturar pelo mais forte. Porém no momento que este companheiro maltratado descobre que seu competidor se debilita, imediatamente toma o posto de sadista, e desde este instante martiriza ao que até então havia sido o torturador. Este jogo alternado leva a uma cadeia sadomasoquista de ferro forjado.”

E completa Marx, dizendo: “Opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.”

Vemos esta inversão de polaridade sadomasoquista sempre que os oprimidos se fortalecem a ponto de derrubarem os seus opressores: eles se tornam os novos opressores e muitas vezes são piores que os antigos algozes, pelo ódio acumulado em anos de opressão. Vimos isso no “Regime do Terror” da Revolução Francesa e nos 100 milhões de mortos nas Revoluções Comunistas do século XX!

Olha esta frase do famoso anarquista russo Michail Bakunin:

“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

“Quem duvida disso não conhece a natureza humana.” E quem conhece? Qual teoria explica a natureza humana? Eu digo: “nenhuma delas, mas todas elas juntas”!

O Mesaísmo se propõe a aceitar e acolher todas as teorias que existem e todas as que surgirem, aumentando o seu volume de conhecimento, mas sem dar prioridade ou “caráter de Verdade” a nenhuma delas!

Qual das partes é o Ser Humano? Seus membros, ossos e tecidos, órgãos, instintos, emoções, sentimentos, pensamentos, alma/espírito?

E agora a outra parte da teoria do Szondi que fala sobre a dualidade Bem x Mal, no mito do Caim x Abel:

Essência e na psicologia do Fator Ético e

Em essência o fator ético e é a causa tanto de todas as ações afetivas grosseiras, do mal do homem Caim, assim como de todos os atos éticos do bom, do justo, do homem Moisés, que dá ao povo ordens contra o crime e mandamentos para fazer o bem. Moisés é o Caim “abelizado”.

O fator instintivoe” é o que pode transformar ao homem por ira e ódio, por cólera e por vingança, por inveja e ciúmes, em homicida por afetos grosseiros; o que instiga ao homem armazenar suas emoções até arrebentar para descarregá-las depois de repente, a modo de explosão, por surpresa, sobre seus próximos; o que põe a mão estranguladora de “Caim” – em lugar do irmão – sobre os próprios vasos do cérebro, do coração, dos instintos e das extremidades e converte, portanto, ao homem em um enfermo de ataques, “homo paroxismal”; o que – em lugar do inimigo, o que desejaria açoitar até deixar-lhe morado (da cor da amora) – cobre sua própria pele com “erupções”; o que entorpece a língua do homem ao falar até fazê-lo gaguejar; o que causa os atrozes medos pela noite e o dia, este fator aterrador é o fator e.

Porém, por outra parte, este mesmo fator e é aquela instância que desperta a consciência do homem, proíbe a impaciência e o homicídio, põe preceitos para o comportamento ético da Humanidade, o que impulsiona ao homem “Caim” – que habita eternamente em nós – à paciência e à justiça, à piedade e à compaixão, o que cura aos enfermos e o que funda religiões.

Não há nada no mundo, no agir do mal e do bem, na falta de consciência e escrupulosidade, no trato com impaciência e com paciência, na anarquia, legislação e legalidade, na inundação de afetos e em estar livres de todos os arrebatamentos grosseiros, na causa e na cura de feridas, sem o fator e. O fator e (epileptiforme) pode fazer da pessoa tanto um homem “Caim” como também um homem “Moisés” com as tábuas da Lei.9

 Análise das reações negativas e (- e)

A negação hipertônica e indica-nos sempre um estancamento sumamente perigoso dos afetos grosseiros. A explosão pode surgir de repente e se produz um ato afetivo irrevogável ou um ataque. Uma intranquilidade de ascensão paroxismal ou uma cara cerrada furiosa, aparentemente sem motivo, com olhos fixos cintilantes, podem anunciar algumas vezes a tormenta que se avizinha; porém estes sintomas, na maioria dos casos, não se apresentam e o arrebatamento afetivo precipita-se em direção ao próximo tão de repente e inesperadamente como um raio. Com frequência até um copo de álcool ou uma palavra inadvertida de parte do ambiente e o ato afetivo é produzido já irrevogavelmente. O psicólogo clínico tem que pensar também, naturalmente, num ataque epileptiforme, ou em algum outro equivalente afetivo do ataque, como, por exemplo, em poriomania, cleptomania, dipsomania ou thanatomania.10

O instinto do Caim e suas consequências

Instinto Paroxismal ehy+: O puro Caim. Armazenamento de ira, ódio, cólera, vingança, inveja e ciúmes; ambição de ensinar o mal. Guiam no comportamento: a falta de consciência, injustiça, intolerância, maldade, ateísmo.

O ego é, a nosso ver, também o responsável de que determinadas pessoa deixem atual o Caim, na cena da vida com todos os afetos grosseiros em lugar do irmão Abel. No perfil instintivo esta reação é a imagem do puro Caim, do assim chamado homem mal.

A maldade de Caim nutre-se de duas tendências. Primeiramente, armazena em si os afetos grosseiros (ira, ódio, cólera, vingança, inveja, ciúmes). Em segundo lugar, quer fazer voar estes afetos grosseiros na primeira oportunidade que se apresente. Portanto, Caim não se envergonha de ser o irmão mal.

Junto às predisposições hereditárias, o que determina o destino afetivo do “ser Caim” na vida de cada um, são principalmente os erros na educação na mais tenra idade. Com frequência, entre irmãos rivais, desenvolve-se reivindicações Cainíticas naquele que recebeu de seus pais menos amor. Tem o impulso de desejar a morte de seu rival ou inclusive do pai injusto. O destino trágico do Caim começa, portanto, no início da infância. À noite são com frequência enuréticos obstinados (faz xixi na cama, dormindo), de dia se encolerizam facilmente e por seus atos de vingança causam muitos danos em casa e na escola.

Estes Cainitas tendem sempre à generalização, isto é, à amplificação do “campo de ciúmes”, já que até em seus êxitos profissionais sentem-se também menosprezados; assim, paulatinamente, vão alargando constantemente o círculo de pessoas contra as quais abrigam ira e ódio, invejosos e ciumentos de seus êxitos. Encontramos principalmente a estes Cainitas entre fabricantes, comerciantes, cientistas, literatos, políticos que não tiveram o êxito esperado ou o reconhecimento. Não poucas vezes se transforma o “Caim enurético” num crítico científico ou um crítico literário, transformando assim, mais adiante, o “urinar obstinado na presumida ciência” e que de forma intolerante e desapiedada “salpica” a qualquer autor que tenha alcançado literária ou cientificamente mais que ele, que como um infeliz “Caim de caneta” só se escraviza de sua vingança em uma redação.

Não se pode ser mal, com estes Cains. Seu destino provoca antes uma compaixão que desprezo. O Caim bíblico estrangulou seu irmão por seu amor infinito a Deus Pai, uma circunstância que se esquece facilmente ao julgá-lo. Estas presunçosas naturezas Cainíticas equivocam as medidas em toda aventura política e se convertem nos caluniadores e denunciantes mais brutais durante uma revolução ou uma ditadura.

Só um pequena parte dos Cainitas atentam contra um inimigo hipotético com um feito afetivo irrevogável (homicídio furioso e fúria por ciúmes). Outra parte oculta suas reivindicações Cainíticas por trás de uma atividade pseudocientífica social permitida. Só uma porcentagem reduzida de todos os Cains escolhem o caminho da conversão. Não obstante, uma quinta parte da Humanidade são Cains; sua frequência é, contudo, menor que a das diversas variações dos “Abéis”, que chegam a algo mais de 1/3 da população média.

Apesar de que o Caim puro mantém a seu mais doce irmão Abel no inconsciente, inclusive o psicólogo profundo com pouca frequência consegue girar a cena da vida afetiva do mal ao bom, provavelmente porque o meio ambiente é incapaz também de amar a seus inimigos “Cains”, e de convencê-los com amor e carinho perseverante, já que na vida com amor tudo resulta mais fácil que com maldade.11

Todas estas reflexões abrem espaço para um universo novo e impensando, desconstruindo as teorias antigas como verdades absolutas e reconstruindo um mundo onde todos estão certos nas partes observadas das suas posições relativas.

Nesta visão abre-se a possibilidade de substituirmos os infindáveis “jogos de poder sadomasoquistas” dos “opressores x oprimidos” por uma sociedade complexa e acolhida sob uma única identidade: a de sermos todos Homo sapiens!

E esta nova Humanidade substitui o Sadomasoquismo de Thanatos pelo Amor de Eros, numa ascensão sem quedas e num crescimento permanente rumo ao bem de todos, sem líderes patológicos e onde as diferenças serão secundárias à nossa igualdade!

Para concluir, mais um pensamento de Szondi:

“A dignidade e a responsabilidade do homem residem, entre outros, na capacidade de carregar conscientemente o próprio destino. E ele se reveste de dignidade precisamente por ser o único ser vivo que tem capacidade de conscientizar. Porém, forçado a superar antagonismos entre liberdade e compulsão, entre a própria personalidade e a herança familiar, carrega o pesado fardo da vida humana”.

Paulo Maciel

26/01/2024

Fontes:

1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Zoroastrismo

2 pt.wikipedia.org/wiki/Tábula_rasa#:~:text=Locke%20detalhou%20a%20tese%20da,é%20aprendido%20através%20da%20experiência.

3 https://cursolivrepsicologia.webnode.page/news/a-mente-e-uma-tabula-rasa-/

4 https://www4.pucsp.br/pos/cesima/schenberg/alunos/eduardoaugusto/Incosciente1.htm

5 Plomin R, DeFries J, McClearn G, McGuppin P, “Genética do Comportamento”, 2011, Ed. Artmed. p.245

6 Idem, p.246

7 Szondi, L. Tratado del Diagnostico Experimental de los Instintos. Ed. Biblioteca Nueva, Madri, 1970.

8 Idem, p76.

  1. Idem pp. 99-100.
  2. Idem pp. 102-103.
  3. Idem pp. 116-117.